Uma história
Quando Lúcio chegava em casa, no fim de toda tarde, todas as atenções se voltavam para ele, salvo a de Cristina. Se a vida fosse um desenho animado, seria possível ver duas chamas saindo dos olhos de Cristina a cada vez que era obrigada a se deparar com Lúcio. Às vezes, as chamas eram mais fracas, outras vezes eram mais fortes, mas elas sempre eram uma coisa: presentes.
Cristina não era uma pessoa que sabia disfarçar o que sentia. Ou talvez até fosse, apenas não quisesse. Ninguém teve tempo de perguntar.
Você talvez se pergunte por que ela não gostava de Lúcio. Ninguém sabe, Cristina nunca reclamou dele para ninguém, mas eu sempre tive uma desconfiança, porque Lúcio era chato, e Cristina impaciente. Para mim, era claro que era esse o motivo para os olhos vermelhos de Cristina a cada vez que Lúcio aparecia.
Eu me lembro de um dia em que cheguei mais cedo da escola, e Cristina estava debulhando o feijão, como ela sempre fazia nas segundas. Só que esse dia era uma terça, não uma segunda, e eu tenho certeza disso, porque a terça era o único dia da semana em que eu podia sair da escola mais cedo, coisa que raramente fazia.
Nas terças, a gente tinha aula de educação física às 3 da tarde. Você não imagina, mas fazer ginástica, com uma dor que caminha da parte traseira de sua coxa até metade da suas costas, não é uma coisa bacana. Era por isso que eu podia ir pra casa mais cedo nas terças, mas raramente o fazia, porque me apraziam os olhares enviesados e invejosos dos meus colegas de classe que também queriam não fazer a aula, mas eram obrigados. Alguns tentaram inventar dores várias, mas, ao chegar a hora de tê-las validadas pelos doutores, a mentira era sempre descoberta.
Eu não mentia, então, quando, um belo dia, falei em casa que não conseguia me mexer de tanta dor na minha parte de trás, minha tia me levou ao médico quase na mesma hora. Eu digo quase, porque ela precisou tomar banho, lavar o cabelo e colocar seu ruge rosa e seu batom vermelho antes. Ela não saía de casa sem fazer isso, era impossível. Segundo tia Valda, sem sua limpeza e sem sua beleza, o mau agouro ia se apossar dela, ela tinha certeza. Como ouvi isso minha infância toda, essa certeza eu também tinha.
Acho que foi assim que Lúcio apareceu na vida de tia Valda. Eles se conheceram num dia em que, por um descuido gigante misturado com uma pressa irresponsável, ela precisou colocar a cara na rua para pegar uma encomenda sem ter arrumado a fuça. Ela o viu e parece que foi transformada numa pedra: ficou parada, igual a uma estátua, completamente vidrada, olhando para Lúcio. Ele, do outro lado da rua, viu aquele movimento (ou melhor, a falta dele) e não teve outra coisa a fazer a não ser prestar atenção. Como fez isso parado, tia Valda achou que o impacto que a tomara de assalto tinha sido o mesmo que fizera Lúcio ter ficado inerte. Ele apenas a tinha achado muito estranha e feia.
Tia Valda dizia que esse dia tinha sido a exceção à regra que ela estabelecera para si. Tinha saído sem maquiagem e, quis o destino, encontrado o que ela acreditava ser o seu grande amor. Tinha sido o único dia de sorte capaz de confirmar os dias de azar que viriam caso seu comportamento imprudente em relação a sua aparência se repetisse.
Ela jamais quis descobrir se tinha razão ou não, e abraçou essa verdade com a sua fé cega, a mesma que tinha deixado Santo Antônio de cabeça para baixo no congelador por três anos e meio. O pobre do santo seguia esquecido lá dentro, mesmo depois de a corte de Lúcio à tia Valda ter se transformado em relacionamento sério, ainda que sem anel.
Foi Cristina que salvou o santo num dia em que resolveu procurar os pés de galinha que tinha congelado para fazer um ensopado. Para que ninguém os jogasse fora, Cristina empurrou os pés de galinha no fundo do frio de um jeito impertinente, apenas para, meses depois, não conseguir tirá-los sem uma faca de abrir coco.
Foi batendo no gelo acumulado do congelador como se matasse Lúcio que Cristina viu o que pensou ser um pedaço de pau quando finalmente conseguiu tirar seu saco de pés de galinha. Somente ao tirar o tal pedaço de pau ela se deu conta de que Santo Antônio seguia castigado, mesmo depois de ter realizado a graça pedida por tia Valda. Não passou pela cabeça de Cristina que, talvez, apenas talvez, Lúcio não fosse uma graça alcançada, mas um castigo.
Naquela terça, Cristina debulhava o feijão no dia errado e com muita raiva, falando sem parar que o feijão tinha chegado na segunda e não no domingo, que o domingo era o dia do feijão, que devia ser buscado no mercado em frente à igreja logo depois da missa das 7h. Por que ninguém tinha ido à missa no domingo? Por que ninguém tinha se lembrado do feijão? Por que ninguém tinha se lembrado dela?
Eu nunca tinha visto Cristina daquele jeito, então fui atraída pela visão de uma mulher magra, com um vestido branco mais alvo que a boneca de alfenim que tia Valda se recusava a me emprestar, completamente transtornada por causa do dia errado do feijão. Se a vida fosse um desenho animado, eu teria visto uma espécie de boneco de posto branco, do tamanho da mangueira que ficava no quintal, com muito cabelo desgrenhado, mexendo loucamente sem parar.
Eu simplesmente não conseguia desviar meus olhos da cena e fiquei na mesma posição até não aguentar mais de dor, o que, na minha cabeça parecia ter sido três horas, mas que durou de verdade só três minutos.
Precisei deitar em seguida e, da sala, fiquei ouvindo os barulhos que Cristina fazia, sem conseguir entender direito o que ela dizia. Eu via que tinha muita raiva ali, mas também via que tinha outra coisa, mas eu não conseguia saber o quê.



Muito bom! Podemos saber mais?