06
Não reconheci meu entorno ao abrir meus olhos naquela manhã de sexta, mas senti uma coisa diferente depois que me dei conta de que não estava no meu quarto. Era uma sensação cor-de-rosa, com gosto de algodão-doce. Hoje, acho que o que eu senti naquela sexta foi paz.
Cristina foi a primeira coisa que eu vi quando me sentei na beirada da cama. Agora que me dou por mim, percebo que ela sempre teve esse (mau) hábito de ficar como uma estátua nos meios dos caminhos.
Acordei com uma fome de leão e só conseguia pensar no meu pão com manteiga e no meu leite com Nescau, então saí da cama e peguei na mão de Cristina, que passou a ser uma estátua andante em vez de uma parante, me levou até a cozinha e instintivamente me fez um copão de leite com Nescau, morninho, do jeitinho que eu gostava. Só que ela se esqueceu de ler a parte do meu pensamento em que estava o pão com manteiga, e eu não sabia que podia pedir.
Como não tive qualquer iniciativa, nem mesmo de me levantar da cadeira, Cristina perguntou se eu queria mais alguma coisa, ao que me minha cabeça respondeu se movimentando para cima e para baixo. Quando ela me perguntou o que eu queria, procurei ao redor para ver se via um pão, mas, em sua ausência fui obrigada a falar “pão com manteiga”. O danado é que não tinha pão em casa, ainda que tivesse manteiga. Só que, para um pão com manteiga existir, é necessário que haja pão, mas pão não havia.
Dizendo para si mesma que não era preciso se desesperar, Cristina se viu obrigada a considerar fazer algo que até então evitara a todo custo: sair de casa. Como ela ia fazer isso? “Não sei.” Tia Valda deixava um pote de biscoito com várias notas e moedas de dinheiro miúdo para emergências que porventura Cristina pudesse ter, mas, a cada vez que abria o pote para colocar mais um dinheirinho, tia Valda percebia que o volume só aumentava, nunca diminuía. A correção de Cristina e sua ausência de necessidade de gastar dinheiro era algo impressionante para tia Valda.
Mas, voltando a Cristina e seu pavor do exterior, preciso dizer: não pensei que ia passar tanto sufoco por causa de um pão (o.k., de oito, mas mesmo assim). Como eu só tinha a camisa-camisola de tia Valda, Cristina me deixou com a mesma roupa com que dormi, limpou minha boca, pegou a chave da porta da frente, colocou no bolso direito da sua bermuda, me pegou no colo, abriu a porta, passou comigo, fechou a porta e trancou a bicha. Depois, ela simplesmente ficou parada comigo no colo por uma quantidade de tempo que eu só consigo chamar de eternidade.
Precisei dar um microchute na barriga de Cristina para ela acordar. A bicha parecia que tinha congelado de frente para a porta do apartamento e se assustou com meu movimento, ainda que ele tenha sido curto. Ela se disse em voz alta “é só um pão, que está lá na padaria, basta atravessar a rua”. Eu fiquei meio assustada e, percebendo meu desconforto, Cristina me colocou no chão. Ela pegou minha mão esquerda, descemos o lance de escada que nos separava da entrada do prédio e demos passos lentos, muito lentos, até chegarmos à calçada.
Quando vi a ruma de pão do outro lado da rua, comecei a dar pulinhos de felicidade e a apontar meu indicador direito na direção da minha terra prometida, porque eu ia poder comer quantos pães com manteiga quisesse! Mas Cristina, de novo com a mania de parar no meio dos caminhos, não se movia. Eu puxava sua mão direita com minha mão esquerda, mas nada acontecia. Resolvi trocar de mão, mas minha mão direita ainda era mais fraca que a mão direita dela. Então, uni as forças das minhas duas mãos, mas elas ainda eram mais fracas que a única mão direita de Cristina, então nem quis saber: puxei, puxei mais uma vez e puxei de novo mais forte, apenas para me estabacar no chão igual a uma manga que cai de madura.
Cristina acordou com o susto da minha queda, me pegou no colo e atravessou a rua correndo, como se alguém a estivesse perseguindo. Eu achei tudo o máximo, sem me dar conta do risco de atropelamento que tínhamos corrido, afinal ia comer meu pão e tinha chegado à padaria com emoção. Fiquei com meus olhos vidrados olhando para os pães e, ao ser perguntada quantos eu queria, só pensei em 8, a idade de quem podia ir à escola e a que eu sonhava em ter.


