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O ensopado ficou ruim. É só disso que me lembro da noite daquela terça. Tinha pé de galinha de mais, tinha sal de menos, tinha muita água e pouco coentro, tinha nada de pimenta e muito de alho. O negócio estava um horror, tal qual o humor de Cristina, sua fazedoura.
Eu raspei o prato, como sempre fazia, mas continuei com fome. Fui dormir com fome nessa noite. Se a vida fosse um desenho animado, seria possível ver minha barriga se mexendo loucamente de raiva, a mesma raiva que Cristina usou para cozinhar, só que mais barulhenta.
Falei que fui dormir, mas é mentira; eu só consegui me deitar. A dor na perna e a fome na barriga não me deixaram pregar o olho. Não tinha posição que me impedisse de achar tudo ruim, e eu não tinha vontade nenhuma de não reclamar da minha vida (ainda que, para não acordar o resto da casa, tenha ficado muda).
Eu seguia sem entender por que cargas-d’água Cristina estava tão irada por causa da mudança do dia do feijão. Isso simplesmente não fazia sentido, porque ela não tinha uma agenda rígida de afazeres domésticos semanais que não pudesse ser mudada. A verdade é que ela vivia em função das necessidades da casa, e isso, sim, era uma coisa imutável. Até aquela terça.
Tivesse eu sido mais atenta, teria entendido que aquele começo de semana atrasado era o prenúncio de outros atrasos, mas eu estava tão absorta com a desgraça da dor da minha perna que só consegui pensar em mim.
Tia Valda e Lúcio não pareceram achar o ensopado de pé de galinha ruim. Na verdade, quando estavam juntos, nada lhes parecia ser ruim. Não estou falando que, se a vida fosse um desenho animado e você olhasse o casal, veria corações a seu redor, não é isso. Mas, quando eles estavam juntos, uma tranquilidade muito esquisita se instalava, como se a vida não pudesse se viver em si mesma. Nada tinha o direito de mexer com aquilo. Quer dizer, quase nada.
Tia Valda não gostava do silêncio que Lúcio fazia quando comia. Tenho para mim que ela não gostava era do barulho que ele fazia quando comia, que era muito mais alto por causa do silêncio que ela fazia. Tia Valda não gostava de barulho, não gostava de poeira e não gostava de escuridão. Com Lúcio, sua vida passou a ser barulhenta, empoeirada e escura, e isso era difícil para ela.
Não raras vezes, ouvi tia Valda falar com sua versão narcisa, muito seriamente, que era melhor não ter tudo o que queria da vida e ter Lúcio. Eu não acreditava no que ouvia, porque ela sempre se dizia isso aos prantos, cheios de lágrimas gordas, que lavavam as maçãs de seu rosto e borravam seu bem-posto ruge.
Eu não entendia como era possível querer um Lúcio que deixasse a vida da gente tão cheia de coisa que a gente não quer, mas aprendi com tia Valda que era assim mesmo. Ela sempre terminava sua cantilena dizendo isto: é assim mesmo. Até que um dia deixou de ser.
Eu não me dei conta quando aconteceu, porque, como disse, estava absorta na minha dor, mas tudo começou naquela terça à noite. Eu acho é que tudo descomeçou naquela terça à noite, sendo bem sincera.
Se a vida fosse um desenho animado, acho que eu queria ter lido em alguma parede “cenas dos próximos capítulos”, apenas para me preparar, sabe? Eu merecia ter tido a chance de me preparar.



Gosto tanto de tá na cabeça de alguém…. Quando está fluido assim, descanso de estar na minha.
Sensação tão boa.
Que texto bom de ler, Amandita! Adorei!